O senador e candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, divulgou nesta terça feira, 15 de setembro, um pronunciamento de campanha no qual elevou o tom contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Em uma das declarações de maior impacto, afirmou que Lula teria “dividido seu poder” com Moraes e declarou que o Brasil estaria “sem presidente” e “sem comando”.
A manifestação foi divulgada no mesmo dia em que o STF realizou uma sessão extraordinária para discutir a Petição 16.662, processo relacionado às informações obtidas pela Polícia Federal no caso Banco Master e que envolve questionamentos sobre a atuação de Moraes. A coincidência colocou o pronunciamento diretamente no centro da crise institucional que passou a ocupar a reta final da eleição presidencial.
Flávio afirmou que decidiu interromper o formato tradicional de sua campanha diante do que classificou como gravidade do momento político. Segundo o candidato, o governo Lula teria produzido um “desequilíbrio institucional” ao se aproximar de uma parcela do Supremo. A afirmação faz parte da estratégia eleitoral do candidato de associar o atual presidente à crise envolvendo Moraes e o Banco Master.
“Não é hora de rancor. É hora de esperança. É hora de mudar”, afirmou Flávio. Na sequência, o candidato declarou que pretende apresentar uma alternativa ao cenário atual e utilizou o pronunciamento para vincular críticas ao governo e ao Judiciário às principais propostas de sua candidatura.
No trecho mais contundente do discurso, Flávio afirmou que Lula teria compartilhado poder político com Alexandre de Moraes. “O atual presidente dividiu o seu poder com Alexandre de Moraes. E, no fim, o Brasil ficou sem presidente nenhum”, declarou. A acusação é de natureza política e foi apresentada pelo candidato sem demonstração, no pronunciamento, de uma divisão formal de competências entre o Palácio do Planalto e o ministro do Supremo.
Flávio também procurou transformar a crise institucional em uma mensagem eleitoral. Ao final da manifestação, declarou que a situação seria temporária e afirmou que “um novo presidente está chegando”, em referência à própria candidatura. “Depois da escuridão mais forte é que vem a luz”, disse, antes de afirmar que “o Brasil vai vencer”.
Ataques ao governo e propostas eleitorais
O pronunciamento, porém, não ficou restrito ao confronto com Lula e Moraes. Flávio utilizou a mensagem para apresentar algumas das bandeiras de sua candidatura, sobretudo nas áreas de segurança pública, economia e reforma política.
Na segurança, prometeu que, caso seja eleito, seu governo classificará PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas. Também relacionou a criminalidade à perda daquilo que chamou de “soberania da segurança pública”.
Na economia, afirmou que pretende promover uma redução dos juros e da dívida e relacionou o endividamento das famílias à situação das contas públicas. O candidato também voltou a criticar as condições econômicas durante o governo Lula, citando endividamento, custo dos alimentos e perda de poder de compra como argumentos para defender uma mudança de governo.
Outro ponto de destaque foi a defesa do fim da possibilidade de reeleição para presidente da República. Flávio afirmou que, se vencer em outubro, não disputará um novo mandato presidencial em 2030 e argumentou que a possibilidade de reeleição pode fazer governantes priorizarem sua permanência no cargo em vez de decisões de longo prazo. A proposta já havia sido apresentada pelo candidato anteriormente durante a campanha.
Pronunciamento ocorre no dia de sessão histórica do STF
A escolha da data ampliou o peso político da manifestação. Nesta terça feira, o plenário do Supremo se reuniu extraordinariamente para discutir a crise aberta em torno das investigações do caso Banco Master, que colocou ministros da Corte em lados opostos.
A sessão foi convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin. O tribunal informou anteriormente que analisaria a Petição 16.662, inicialmente relatada por André Mendonça. Fachin posteriormente assumiu a relatoria após o envio dos autos à Presidência e determinou que casos relacionados ao Banco Master e ao INSS fossem encaminhados para análise da Presidência da Corte.
O processo reúne elementos produzidos durante as investigações sobre Daniel Vorcaro, ex controlador do Banco Master, incluindo informações que passaram a levantar questionamentos sobre contatos envolvendo Alexandre de Moraes. O ministro nega ter cometido irregularidades. A crise também provocou confrontos internos entre integrantes do Supremo sobre os limites das investigações e sobre quem deveria conduzir os procedimentos.
Flávio tentou utilizar justamente esse ambiente para reforçar sua narrativa eleitoral de que haveria uma aproximação excessiva entre o governo Lula e setores do Judiciário. A estratégia ocorre a menos de três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro. O eventual segundo turno será realizado em 25 de outubro.
Caso Master também alcança Flávio Bolsonaro
O pronunciamento ocorre, no entanto, enquanto o próprio candidato do PL enfrenta questionamentos relacionados ao caso Banco Master.
Flávio é investigado em um procedimento que apura suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas a operações envolvendo Daniel Vorcaro e o financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”, sobre o ex presidente Jair Bolsonaro. Segundo informações reveladas no processo, a investigação examina recursos destinados a uma estrutura financeira ligada ao projeto do filme. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades.
O candidato não tratou desse episódio em seu pronunciamento desta terça. A Folha registrou que, ao atacar Lula e Moraes durante sua propaganda eleitoral, Flávio deixou de mencionar as investigações envolvendo sua própria relação com Vorcaro e o projeto cinematográfico.
A escalada de acusações ocorre em uma eleição marcada pela disputa direta entre Lula e Flávio e pela influência crescente da crise no Supremo sobre o debate eleitoral. Reportagens recentes apontam que a situação do STF e o caso Master passaram a ser explorados não apenas pelos dois principais campos políticos, mas também por candidatos que buscam se apresentar como alternativa à polarização.








