O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, retirou neste domingo, 13 de setembro, o sigilo de documentos de uma investigação relacionada ao financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, e citou a existência de uma linha de apuração sobre possíveis vínculos do esquema investigado com o Primeiro Comando da Capital, o PCC. Na decisão, Dino também registra que o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, aparece, no campo das hipóteses investigativas, como possível liderança da estrutura criminosa sob apuração.
O levantamento do sigilo alcança aproximadamente 5 mil páginas de documentos produzidos e recolhidos inicialmente pela Polícia Civil de São Paulo. Dino determinou ainda que a Secretaria de Segurança Pública paulista entregue à Polícia Federal os dados brutos extraídos de celulares, computadores e outros materiais vinculados às pessoas físicas e jurídicas investigadas.
Ao justificar a decisão, o ministro afirmou haver indícios de uma estrutura sofisticada para desviar e ocultar recursos públicos provenientes de diferentes fontes, entre elas emendas parlamentares federais e contratos firmados com a Prefeitura de São Paulo. Dino ressalta, porém, que as conclusões ainda são hipóteses investigativas e precisam ser confirmadas ao longo do inquérito.
Mario Frias aparece de forma recorrente nos documentos porque destinou emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, o ICB, presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também está ligada à Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”. A Polícia Federal investiga se parte dos recursos públicos destinados originalmente a projetos sociais foi desviada ou posteriormente direcionada para empresas associadas à produção cinematográfica.
Em uma das frentes da apuração, a PF analisa R$ 2 milhões em emendas destinadas por Frias ao ICB para dois projetos, um relacionado a letramento digital e empreendedorismo e outro destinado à área esportiva. Relatórios reunidos pelos investigadores e pela Controladoria-Geral da União apontaram problemas na comprovação da execução, suspeitas de direcionamento de fornecedores e inconsistências em documentos apresentados.
A possível conexão com o PCC aparece em outra ramificação da investigação, relacionada ao programa Wifi Livre SP. O Instituto Conhecer Brasil mantém um contrato de grande porte com a Prefeitura de São Paulo para implantação e manutenção de pontos gratuitos de internet. Dentro dessa estrutura, o ICB subcontratou a então Favela Conectada Serviço e Tecnologia, posteriormente rebatizada como Urban Connect Serviços e Tecnologia.
O subcontrato entre o instituto e a empresa era de aproximadamente R$ 12 milhões. Esse valor não corresponde ao contrato total do ICB com a Prefeitura, que é muito maior. A investigação da Polícia Civil apontou que o contrato municipal relacionado ao programa chegava a cerca de R$ 108 milhões por ano.
A Urban Connect tinha como único sócio, desde sua fundação em agosto de 2020, Alex Leandro Bispo dos Santos. Ele é apontado pelo Ministério Público de São Paulo e por informações de inteligência policial citadas na investigação como integrante do PCC. Em 14 de janeiro de 2026, Alex deixou formalmente a sociedade e transferiu a totalidade do capital da empresa para sua companheira, Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes.
Segundo os documentos analisados pelos investigadores, a Urban Connect solicitou a uma instituição financeira, em fevereiro de 2025, aumento expressivo dos limites para transferências via TED. A empresa informou ao banco que passaria a receber valores decorrentes do contrato de R$ 12 milhões firmado com o Instituto Conhecer Brasil para o Wifi Livre SP.
A instituição financeira teria identificado inconsistências na primeira documentação apresentada pela empresa. O contrato inicialmente entregue possuía assinatura simples, não tinha data e não permitia a verificação de autenticidade. Após questionamentos, uma nova versão foi apresentada, com reconhecimento de firmas, mas os investigadores afirmam que permaneceram dúvidas sobre a metodologia usada para chegar ao valor contratado.
É a partir desse encadeamento que Dino menciona a possível ligação da estrutura investigada com o PCC. A decisão não estabelece que Mario Frias tenha relação direta com a facção nem que o filme “Dark Horse” tenha sido financiado pelo grupo criminoso. O que está sob investigação é a existência de uma rede de entidades, empresas, contratos e transferências financeiras que, segundo a hipótese policial, poderia formar um mesmo sistema de desvio e lavagem de recursos.
A apuração ganhou força na última quinta-feira, 10 de setembro, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os principais alvos estavam Mario Frias e Karina Gama.
A PF apura possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em procedimentos licitatórios. Segundo a corporação, a estrutura investigada teria movimentado recursos públicos sem prestação de contas adequada, e o volume global de desvios potencialmente analisados alcança centenas de milhões de reais.
Outro ponto investigado é uma transferência de R$ 645,4 mil feita por Mario Frias à Go Up Entertainment em 2025. A PF considera que o valor merece esclarecimentos diante dos rendimentos declarados pelo parlamentar e procura determinar a origem dos recursos e sua relação com a produção do filme.
Investigações anteriores também identificaram movimentações consideradas atípicas de aproximadamente R$ 19 milhões pela Go Up entre novembro e dezembro de 2025, período que coincide parcialmente com as gravações de “Dark Horse”. A PF apura se recursos que circularam por entidades e empresas ligadas a Karina Gama acabaram chegando à produtora do longa.
Ao retirar o sigilo, Dino também determinou que elementos apreendidos anteriormente pela Polícia Civil sejam disponibilizados à Polícia Federal, permitindo que as diferentes movimentações financeiras sejam analisadas em conjunto. O objetivo é verificar se os casos investigados separadamente fazem parte de uma mesma estrutura criminosa.
A Operação Make Up também impôs restrições a investigados e suspendeu atividades de entidades citadas no caso. A PF procura reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro desde a liberação das verbas públicas até os pagamentos feitos a fornecedores, empresas e pessoas relacionadas aos projetos.
Mario Frias nega irregularidades. Após ser alvo das buscas, o deputado classificou a operação como uma “cortina de fumaça” em ano eleitoral e afirmou que as emendas de R$ 2 milhões foram destinadas a projetos de esporte e letramento digital. Segundo o parlamentar, a execução dos recursos não fica sob seu controle direto, e sua defesa apresentará documentos às autoridades.
A empresária Karina Gama também nega ter cometido irregularidades. Ela é investigada tanto pela Polícia Federal quanto em apurações relacionadas aos contratos do Instituto Conhecer Brasil e às movimentações de empresas ligadas à produção de “Dark Horse”.
O caso permanece em fase de investigação. A classificação de Frias como possível liderança, a existência de uma organização criminosa e a conexão da estrutura com o PCC são hipóteses apresentadas pelos investigadores e reproduzidas por Dino em suas decisões, não conclusões definitivas nem condenações judiciais.








