A disputa pelo controle comercial da Copa do Mundo provocou uma ruptura sem precedentes entre a Fifa e o futebol europeu. A Uefa e suas 55 federações nacionais decidiram, por unanimidade, que suas seleções não participarão de competições organizadas pela entidade mundial enquanto o projeto de abertura para investidores privados continuar em discussão.
A decisão transforma em boicote condicionado o que inicialmente havia sido apresentado como uma ameaça. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, 30 de julho, a Uefa afirmou que nenhuma seleção europeia disputará torneios da Fifa até que a proposta seja totalmente abandonada e sejam apresentadas garantias de que as competições não serão abertas novamente à participação de investidores privados.

O centro da crise é a criação da FIFA Forward Enterprise, conhecida pela sigla FFE. A nova subsidiária concentraria operações comerciais e a organização dos principais campeonatos da entidade, incluindo a Copa do Mundo masculina, a Copa do Mundo feminina, o Mundial de Clubes e competições de base.
Pelo plano apresentado pela Fifa, investidores de longo prazo poderiam adquirir participações minoritárias e sem poder formal de controle na empresa. A FFE teria uma avaliação inicial estimada em US$ 20 bilhões e poderia captar até US$ 4,2 bilhões ainda em 2026. A entidade afirma que continuaria responsável pelas decisões esportivas, pelo calendário internacional, pelos regulamentos e pelos formatos das competições.
A Fifa sustenta que o modelo permitiria ampliar os investimentos no desenvolvimento do futebol mundial para mais de US$ 10 bilhões. Cada uma das 211 federações filiadas poderia receber até US$ 20 milhões em recursos extraordinários, além de valores maiores nos próximos ciclos do programa FIFA Forward.
Atualmente, as federações podem receber até US$ 8 milhões durante o ciclo de quatro anos do programa. Pela proposta, o valor subiria para US$ 20 milhões entre 2027 e 2030, US$ 22 milhões no ciclo seguinte e US$ 24 milhões entre 2035 e 2038. Segundo Gianni Infantino, a iniciativa representaria uma forma de distribuir melhor os recursos gerados pelo futebol mundial.
A Uefa, porém, considera que a entrada de investidores modificaria de maneira permanente a natureza das competições. Para a entidade europeia, mesmo participações minoritárias criariam uma obrigação constante de retorno financeiro e poderiam fazer com que decisões sobre calendário, formatos e expansão de torneios fossem influenciadas pelos interesses dos acionistas.
A organização também criticou a falta de transparência no desenvolvimento do projeto. Segundo o comunicado europeu, uma proposta com tamanho impacto teria sido conduzida sem uma consulta significativa às confederações, federações, jogadores, clubes e torcedores. A Uefa declarou que a Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento e afirmou que o torneio não está à venda.
Entre os possíveis investidores está a Thrive Eternal, ligada ao empresário Joshua Kushner. Ele é irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A Fifa também estaria trabalhando com o banco J.P. Morgan na estruturação financeira da operação.
O conflito ameaça diretamente o planejamento da Copa do Mundo de 2030. Espanha e Portugal, integrantes da Uefa, serão sedes do torneio ao lado de Marrocos. Argentina, Paraguai e Uruguai receberão os jogos comemorativos do centenário da competição. Caso o impasse permaneça até lá, o Mundial poderia perder algumas das seleções mais tradicionais do planeta e enfrentar uma crise esportiva, institucional e comercial.
Esta não é a primeira tentativa de Infantino de aproximar a Fifa de investidores privados. Em 2018, o dirigente apresentou uma proposta avaliada em US$ 25 bilhões, com participação do grupo japonês SoftBank, para criar e ampliar competições internacionais. O projeto não avançou após forte resistência da Uefa, que temia impactos sobre torneios como a Liga dos Campeões e a Eurocopa.
Para ser colocado em prática, o novo modelo ainda precisa do apoio da maioria das 211 federações filiadas e das aprovações necessárias dentro do Conselho da Fifa. A crise, portanto, ainda pode ser revertida. A Uefa, no entanto, deixou claro que somente a retirada integral da proposta poderá restabelecer a participação das seleções europeias.
O confronto coloca Gianni Infantino diante de uma das maiores crises de sua presidência. De um lado, a Fifa defende que a operação ampliará os investimentos e distribuirá mais dinheiro entre federações de todo o mundo. Do outro, a Europa afirma que o patrimônio esportivo da Copa não pode ser colocado a serviço dos interesses de acionistas privados.






